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Cientista brasileiro é celebrado no mundo; no Brasil, falta apoio e escala para sua descoberta

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Cientista brasileiro é celebrado no mundo; no Brasil, falta apoio e escala para sua descoberta

A eleição do brasileiro responsável pela criação do “Aedes” geneticamente modificado — capaz de bloquear a transmissão da dengue — como uma das personalidades científicas do ano pela revista Nature representa um raro momento de reconhecimento internacional à ciência produzida no país. Em um ambiente político muitas vezes marcado por cortes de orçamento, descontinuidade de programas e pouca valorização da pesquisa, o destaque dado pela publicação evidencia o potencial transformador da biotecnologia brasileira. Não se trata apenas de um prêmio individual, mas de um sinal de que o Brasil, quando investe de forma consistente, pode liderar soluções globais para desafios sanitários.

O método baseado na introdução de mosquitos modificados para impedir a circulação do vírus é considerado uma das estratégias mais promissoras do mundo no combate à dengue, superando a dependência exclusiva de campanhas tradicionais de controle do vetor. No entanto, o sucesso científico contrasta com a lentidão histórica do país em adotar inovações em escala nacional. Municípios ainda debatem resistências políticas, falta de planejamento e limitações orçamentárias, enquanto a doença segue avançando. O reconhecimento internacional expõe uma contradição incômoda: o Brasil produz ciência de ponta, mas hesita em transformá-la em política pública eficaz.

A premiação pela Nature deveria servir como ponto de inflexão. Diante de epidemias recorrentes, com milhares de hospitalizações todos os anos, ignorar uma solução validada cientificamente é mais do que descaso — é má gestão sanitária. Se o país deseja de fato reduzir a vulnerabilidade à dengue, precisa abandonar disputas ideológicas e incorporar a inovação como eixo central da política de saúde. O feito do pesquisador brasileiro não é apenas motivo de orgulho; é um chamado urgente para que o Estado trate ciência como prioridade estratégica e não como exceção.

Da redação, Folha de Brasília.

Foto: Peter Ilicciev/WMP Brasil/Fiocruz