O anúncio de que o Brasil assumirá, em 2025, a liderança mundial na produção de carne bovina reforça o peso do agronegócio na economia nacional, mas também recoloca em debate as contradições de um modelo produtivo que avança sem resolver seus passivos estruturais. A conquista é celebrada por setores econômicos como sinal de competitividade e eficiência, mas ocorre em um contexto de pressão crescente por sustentabilidade, rastreabilidade e redução de impactos ambientais. Ser líder global significa também ser alvo de maior escrutínio internacional — algo que o Brasil ainda não está plenamente preparado para enfrentar, dada a persistência de desmatamento ilegal, conflitos fundiários e práticas que fragilizam a imagem do país no exterior.
A expansão da produção bovina exige políticas robustas de governança ambiental, algo que historicamente oscila conforme o governo de turno. Enquanto a cadeia produtiva pressiona por menos regras e mais liberdade de expansão, mercados compradores — especialmente Europa e Ásia — impõem critérios cada vez mais rígidos de comprovação ambiental. O risco é claro: conquistar o topo da produção e, simultaneamente, ampliar vulnerabilidades comerciais caso o país não avance em sistemas confiáveis de monitoramento territorial e combate às irregularidades. O setor pode ganhar em volume, mas perder em valor agregado, reputação e acesso a mercados premium.
Além disso, a liderança na produção não se traduz automaticamente em benefícios sociais. Grande parte dos municípios mais dependentes da pecuária apresenta baixo Índice de Desenvolvimento Humano, infraestrutura precária e elevada concentração de renda. O contraste revela que o crescimento do setor não tem sido acompanhado por redistribuição ou diversificação econômica. Se o Brasil deseja transformar essa liderança em desenvolvimento sustentável, precisará equilibrar expansão produtiva com responsabilidade ambiental e políticas públicas que convertam riqueza territorial em melhoria de vida. Ser o maior produtor do mundo é uma conquista; transformar isso em progresso coletivo é o verdadeiro desafio.
Da redação, Folha de Brasília.
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil







