A leve queda do dólar, apesar de manter a moeda acima dos R$ 5,40, evidencia mais do que uma oscilação de mercado: revela a persistente desconfiança dos investidores em relação ao ambiente econômico brasileiro. Quando a divisa recua apenas marginalmente, mesmo diante de fatores internacionais favoráveis, o recado é claro — o problema não está lá fora, mas dentro de casa. A combinação de incertezas fiscais, sinais contraditórios do governo e a falta de um plano sólido para estabilizar as contas públicas cria uma espécie de teto psicológico que impede recuos mais expressivos.
O discurso oficial tenta minimizar a situação, apontando a volatilidade global como causa principal. No entanto, essa narrativa não sustenta a realidade. Países emergentes com fundamentos mais organizados têm visto suas moedas recuperar valor de maneira mais consistente. O Brasil, ao contrário, patina porque não oferece previsibilidade. A tensão entre demandas políticas e limitações fiscais se tornou um espetáculo permanente, corroendo a confiança e afastando capitais que poderiam aliviar a pressão cambial. Quando o mercado acredita que o governo hesita entre responsabilidade fiscal e conveniência política, o câmbio responde de forma implacável.
A manutenção do dólar acima de R$ 5,40 não é um acidente; é um sintoma. Um país que não oferece estabilidade regulatória, metas claras e compromisso duradouro com o equilíbrio fiscal tende a viver sob constante estresse cambial. Sem mudanças estruturais, a “leve queda” vira apenas um suspiro entre longas fases de pressão. O governo precisa encarar o câmbio como reflexo de suas próprias escolhas e abandonar o discurso de que tudo se resolve com ajustes pontuais. O preço do dólar é, hoje, o termômetro mais preciso da confiança no Brasil — e o diagnóstico não é dos melhores.
Da redação, Folha de Brasília.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil







