A declaração do ministro Fernando Haddad de que o aporte aos Correios deve ficar abaixo dos R$ 6 bilhões revela mais do que um ajuste fiscal pontual: evidencia a incapacidade histórica do Estado brasileiro de estabelecer uma estratégia clara para uma das maiores empresas públicas do país. A discussão sobre capitalização não deveria se limitar ao tamanho do cheque, mas ao propósito. Qual é o plano para que os Correios deixem de ser vistos como um passivo e se tornem novamente um ativo estratégico, competitivo num mercado dominado por players privados ágeis e tecnologicamente avançados?
O argumento da “responsabilidade fiscal” é válido, mas insuficiente. Sem um plano de modernização, digitalização, revisão de governança e ataque frontal aos gargalos logísticos que corroem eficiência, qualquer aporte — seja de 2, 4 ou 6 bilhões — corre o risco de se transformar apenas em alívio momentâneo. É recorrente a lógica de injetar recursos públicos em vez de enfrentar problemas estruturais. Falta transparência sobre como o governo pretende transformar a estatal em uma operação sustentável, inovadora e menos vulnerável à interferência política.
Por fim, a fala de Haddad expõe um dilema: o governo quer manter os Correios como empresa pública relevante, mas evita discutir o modelo de negócio necessário para isso. Sem metas claras de produtividade, sem compromissos públicos de reestruturação e sem uma visão de futuro baseada em tecnologia e serviços de alto valor agregado, o aporte reduzido pode soar mais como contenção de danos do que como estratégia. A sociedade precisa saber se o governo está disposto a modernizar de verdade — ou apenas administrar o declínio.
Da redação, Folha de Brasília.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil







