Um levantamento recente revela que quase 20% dos moradores de favelas no Brasil vivem em ruas onde carros simplesmente não conseguem circular — becos estreitos, vielas improvisadas e trajetos sem qualquer infraestrutura urbana mínima. O dado escancara uma realidade histórica ignorada pelo poder público: milhões de brasileiros seguem confinados em territórios que o Estado nunca planejou, nunca urbanizou e raramente reconhece como parte formal das cidades.
A ausência de acesso viário não é apenas um problema de mobilidade; é um indicador de exclusão estrutural. Nessas áreas, ambulâncias não entram, caminhões de bombeiros não chegam, coleta de lixo é irregular e serviços básicos se tornam mais caros ou inviáveis. A precariedade, longe de ser acidental, é resultado direto de décadas de políticas urbanas que tratam favelas como “provisoriedades eternas”, negligenciando investimentos que poderiam garantir segurança, dignidade e integração com a cidade.
Enquanto governos celebram projetos de revitalização e discursos de “cidade inteligente”, a realidade nos territórios periféricos segue baseada em improviso, autoconstrução e abandono. Morar em uma viela onde carros não passam não é apenas questão de infraestrutura — é o símbolo de um país que naturalizou desigualdades profundas e insiste em empurrar milhões para fora do mapa urbano oficial. Sem políticas robustas de urbanização, regularização fundiária e infraestrutura, a promessa de inclusão continuará sendo apenas retórica para quem vive onde o Estado nunca chega.
Da redação, Folha de Brasília
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil







