O cancelamento da sabatina de Jorge Messias ao STF não é um choque de “princípios institucionais”, como vendem os discursos oficiais; é uma disputa de força nua e crua entre o Palácio do Planalto e a cúpula do Senado. Quando Davi Alcolumbre fala em “omissão grave e sem precedentes” do Executivo por não enviar a mensagem formal de indicação, ele eleva o tom não para defender a liturgia da República, mas para marcar território: lembra a Lula que, sem o Senado, não há toga, por mais aliado que seja o indicado.
Do outro lado, o governo também joga o seu jogo. Ao segurar a papelada, o Planalto ganha tempo para medir votos, montar o mapa de apoios e tentar converter uma indicação ainda cercada de resistências em vitória segura no plenário. Não se trata de dúvida sobre currículo, trajetória ou visão de Justiça; trata-se de cálculo frio: não queimar um nome de confiança, capaz de permanecer até 30 anos no STF, numa votação feita às pressas e sob risco de derrota. O “atraso” que o Senado aponta como afronta é, para o Executivo, apenas mais uma ferramenta de negociação política.
No fim, o impasse revela menos um conflito entre instituições e mais um pacto tácito: Executivo e Senado usam a cadeira do Supremo como moeda num tabuleiro em que o interesse central não é o desenho de uma Corte independente, mas a preservação de espaços de poder de cada lado. O STF aparece como prêmio de guerra, não como contrapeso. Enquanto Planalto e Congresso disputam quem manda mais no rito da indicação, o recado é claro: a toga entra em cena depois; antes dela, vem o jogo miúdo de quem quer transformar uma vaga vitalícia em capital político de curto e médio prazo.
Folha de Brasília, da Redação
Foto: José Cruz/Agência Brasil







